11 de março de 2015

Ortodoxia & Ortopraxia

Introdução:

No último artigo refletimos sobre a necessidade de piedade e um bom preparo para o Ministro da Palavra. O pastor/mestre é alguém santo e douto, santo porque é regenerado e chamado ao ministério sagrado e douto porque serve à Igreja de Deus por meio da Palavra no exercício da docência. Somente isso seria suficiente para que a prática ministerial se desenvolvesse “como Deus quer”, porém a influência do praticismo pietista e do pragmatismo moderno no protestantismo brasileiro exige uma reflexão sobre a ORTOPRAXIA.

Nós estamos vivendo um tempo de grande pragmatismo e esquisitices no evangelicalismo brasileiro. Essas “coisas” podem ser encontradas em praticamente todas as denominações históricas, comunidades locais que se deixaram envolver por práticas não bíblicas. A verdade é que estamos sendo assaltados com inovações sem fundamento bíblico e muitas vezes sem reflexão dos líderes.

A pergunta é: “Por que práticas estranhas e os movimentos de crescimento de igreja conseguem entrar “sorrateiramente”, tomando conta de nossos cultos e estruturas da igreja? Este assunto tem gerado boas monografias, mas vamos pensar um pouco em um artigo breve, apenas para instigar o pensamento.

Acredito que duas respostas são possíveis a essa pergunta, respostas que se tornaram pressupostos que levam líderes ou uma comunidade a aderir práticas não bíblicas e de veras, esquisitas:

1º O pragmatismo religioso

De maneira muito simples e objetiva, podemos dizer que o pragmatismo nesse contexto é uma filosofia religiosa, advinda da America do Norte que propõe a “busca por resultados”. A ideia principal é que a igreja precisa crescer, dar resultados visíveis, alcançar objetivos, ter uma meta numérica definida. O alvo dessa proposta é alcançar o fim desejado, independente dos meios utilizados para isso. “O fim justificam os meios”.

Um líder ou comunidade influenciado pelo pragmatismo é levado a criar estruturas eclesiásticas e um culto voltado para resultados. Por exemplo: “pesquisa de bairro para saber que tipo de igreja as pessoas querem”; “igrejas em células”, com a necessidade de multiplicação numérica; sincretismo, aderência de práticas africanas, uso de objetos sagrados; culto voltado para a necessidade das pessoas, não mais adoração somente a Deus; pregação psicológica, fantasiosa ou com promessas mercantilistas.

2º O praticismo

Praticismo significa: “Ação pratico-utilitária que visa fins imediatos sem reflexão teórica ou com marco teórico superficial”. O praticismo tem como lema: “só é útil o que é prático”. No contexto religioso brasileiro, o praticismo tem sido o ideal de muitos grupos evangélicos e até mesmo de seminários teológicos influenciados pelo pietismo moderno.

Qual o pastor ou professor de seminário que nunca ouviu de um aluno: “acho que estou sendo inútil aqui apenas estudando” ou quando ensina na igreja, assuntos como oração, caráter de Deus e outra doutrina: “isso é muito acadêmico, gosto de coisas práticas”. Já me deparei com situações em que uma pessoa era aplicada aos estudos e pregava explicando direitinho as Escrituras e por isso era considerada “muito acadêmica”.

O praticismo tem inculcado em algumas pessoas a ideia de que tudo que é profundo, bem elaborado, refletido, discutido e planejado é academicismo e não prático. Os praticistas vivem na base do fundamento mais rápido e fácil; as estruturas eclesiásticas, o culto e a vida cristã são desenvolvidos “de qualquer jeito” ou apenas imitando algum modelo pronto que deu certo e até mesmo seguem a ideia do “vamos fazendo” para ver no que dá. Normalmente os praticistas não gostam de planejamento, reuniões, discussões e estudos teóricos e de casos. Na maioria dos casos, adotam modelos que deram certo com outros ou no caso da vida religiosa super-valorizam a experiência pessoal e o empirismo. Há um valor nessas coisas e a prática acontece no exercício de experiências, podemos até afirmar que a experiência confirma a doutrina; o que é negativo é o uso que o praticismo faz desses elementos do conhecimento. Nosso objetivo é defender a prática e denunciar como algo nocivo o praticismo tão presente em nosso meio.

O praticismo ganhou muita força com o Pietismo. Este movimento teve início na metade do século XVII, os historiadores tem marcado seu ponto de partida com a obra de Philipp Jakob Spener (1635-1705). A obra se chama Pia Desideria. Segundo pesquisadores do movimento, o pietismo foi uma reação à ortodoxia luterana na Alemanha e posteriormente ao movimento puritano. Eles desenvolveram uma ideia de que a ortodoxia protestante era muito rígida e priorizava a doutrina e uma religião nominal. Sabemos que essa interpretação, principalmente em relação aos puritanos é fantasiosa, pois qualquer pessoa mudará de ideia ao ler as grandiosas obras dos puritanos sobre “prática” e “vida cristã”. Algumas expressões foram marcantes para o pietismo; como: “vida versus doutrina”, “Espírito Santo versus ofício do ministério” e a busca pela “experiência religiosa”. O ideal pietista era a conversão pessoal, interpretação livre das Escrituras sem apoio das confissões e dogmas e auto-satisfação pessoal. Spener apoiava a necessidade de formação teológica, porém o ponto principal da vida cristã é a experiência religiosa.

O pietismo do tempo inicial foi renovador para a vida da igreja e contribuiu para várias denominações e o avanço missionário, porém ao longo dos anos foi modificando sua firmesa bíblica e priorizando a experiência, o que fortaleceu o liberalismo e o misticismo evangélico. O pietismo moderno no contexto religioso brasileiro aliou-se ao pragmatismo e o resultado tem sido devastador. De acordo com a tese do Dr. Geovál Jacinto, o pietismo influenciou a maioria dos seminários no Brasil e tem participado no processo de formação da maioria dos nossos pastores[1]. Um pietismo aliado a uma boa formação e com bons fundamentos doutrinários pode ser uma benção para a igreja, mas um pietismo praticista leva a igreja para uma abertura nas inovações e práticas não bíblicas.

Talvez a Reforma que estão pedindo ou uma alternativa ao pragmatismo e praticismo seja o retorno a verdadeira ORTOPRAXIA. Esta busca desenvolver uma prática eclesiástica e religiosa tendo como fundamento princípios bíblicos e inegociáveis. É uma junção entre ortodoxia e prática. Na perspectiva puritana a ortodoxia funciona como “um trilho da fé”, ela fornece as bases e direções para as estruturas, seja na comunidade ou na devoção pessoal.

O que é ortodoxia?

Ortodoxia é seguir corretamente os ensinos da Escritura, através de uma interpretação gramática, contextual e teológica, sendo fiel ao texto e doutrinas fundamentais. É seguir à sã- doutrina ou como diz em Atos 2.42, “perseverar na doutrina dos apóstolos”. As bases da ortodoxia protestante são: A singularidade de Cristo através da lei e o evangelho e a autoridade e suficiência das Escrituras (Bíblia). Tudo que somos e acreditamos passa por esse crivo, se não for assim, estamos fadados ao subjetivismo e inovações. Por isso, “o ensino bíblico/teológico é essencial para o líder e sua igreja, porque os ensinos lastram nossas crenças e, consequentemente, impõe-nos suas ações”.[2]Nossas práticas religiosas são determinadas pelas nossas crenças, sejam aquelas aprendidas em nossa comunidade de origem ou crenças que nós mesmos produzimos em nossas reflexões teológicas particulares.

Por essas razões, a ortodoxia funciona como um trilho nos conduzindo a uma prática segundo a vontade de Deus revelada nas Escrituras. É assim que se fundamenta nossa prática, a qual chamamos tecnicamente de ortopraxia. A ortopraxia deveria se basear em dois princípios que norteam a vida cristã e a eclesiologia em todas as coisas:

1º A busca inegociável pela glória de Deus

Em primeiro lugar essa busca acontece no culto. O propósito de Deus é criar uma família parecida com seu Filho para receber adoração através do culto da vida e do culto público do povo de Deus. O culto da vida é a santidade, devoção pessoal com Deus e a transformação da sociedade através de uma mente reformada, redimida pelo Espírito Santo. No culto público, isso acontece na simplicidade da pregação da Palavra, nas músicas de exaltação, nas contribuições e na eucaristia. O culto é totalmente direcionado a Deus, no culto evangélico não há elementos que satisfaça o homem, pois a glória de Deus e somente isso é nossa satisfação e desejo.

Depois é importante considerar que a glória de Deus alcança áreas da sociedade em geral. O cristão é responsável para trazer essa glória para a política. “Fazei qualquer coisa para a glória de Deus” (1Cor 10.31). A política deve expressar a glória na prática do bem (Rm 13), ela existe para que tenhamos uma vida tranquila, mansa e com ordem (1Tm 2.1-7). Na pratica da justiça e buscando o bem comum para o bem estar do ser humano, a política glorifica a Deus; o contrário disso, produz a ira de Deus!

Também expressamos a glória de Deus na família. A família é o ideal de Deus para o ser humano, não apenas porque Ele nos dá esposas e filhos, mas porque Ele mesmo está formando uma família. O próprio Deus tem escolhido pessoas em todas as nações para a adoção de filhos. Estávamos perdidos, mortos, órfãos e sem direção; por isso, Deus em um ato de amor e livre graça, mesmo eu não merecendo e sendo completamente rebelde me chamou, mudou meu coração e me adotou!! Deus, somente Deus!! Eu te amo, obrigado Pai! Nossa família, constituída conforme a orientação bíblica, expressa a vontade de Deus e serve de exemplo para a organização da igreja. A igreja é uma extensão do lar: Governo pelo pai, auxílio da mãe e filhos em crescimento e disciplina, por isso que se diz: “O que não governa bem a sua casa, não pode governar a Igreja de Deus” (1Tm 3.4-5).

Finalmente a busca pela glória de Deus na administração eclesiástica. O pastoreio da igreja deve ser “como Deus quer” (1Pe 5.1-4). Ninguém tem o direito de usurpar o plano de Deus para Sua Igreja e modificar suas estruturas, a Bíblia continua sendo a “regra” de fé. É muito comum hoje encontrar estruturas que mais se parecem com empresas seculares ou com clubes do que com igreja. Já conheci uma igreja que acabou com os presbíteros e os diáconos passaram a ser os “gestores”. Alguns “cultos” são reuniões de negócios ou fonte dos desejos.

O pastor deixou de ser Ministro da Palavra e conselheiro e passou a ser administrador, não cuida mais do rebanho, mas faz a igreja crescer e aumenta os rendimentos. Ainda é possível encontrar pastores que se tornaram gurus, alimentando as superstições do povo.

A Bíblia dispôs tudo o que é necessário para o cuidado do rebanho. Os presbíteros governam espiritualmente e supervisionam a igreja. Temos nas Escrituras três designações para isso; o pastor (cuida do rebanho), bispo (supervisiona a comunidade) e presbítero (o que preside), essas três designações são figuras de um mesmo ofício e pessoa. Também temos o diácono, este cuida da ordem da igreja e do serviço social, aqui é possível perceber um cuidado mais administrativo do que aquele requerido do presbítero.

2º A missão de Deus

Outro conceito que deveria nortear a prática (ortopraxia) é o da missão de Deus. A missão como defendo aqui não é a busca por relevância a qualquer custo ou aquele praticismo fundamentalista que somente tem olhos para a alma das pessoas. A missão de Deus refere-se à obra da redenção em Cristo Jesus, desde os tempos eternos, a fim de resgatar a criação caída em todos os aspectos da vida humana. A prática cristã precisa considerar que o propósito de Deus inclui toda a criação, é preciso trabalhar para que o homem redimido restaure os elementos não humanos e faça-os expressar a glória de Deus, tanto no domínio, como na sujeição do homem. A ideia do mandato da criação e cultural.

Outra manifestação da missão é a promoção de justiça, em uma sociedade pecaminosa é essencial que a igreja tenha voz profética. Essa voz profética não é aquela declaração ridícula e supersticiosa de poder das palavras ou ato profético tão comum nos neopentecostais, mas é denunciar o erro, o pecado e a injustiça político/social e lutar em prol do necessitado e pelo estabelecimento da justiça pelos governantes. É a justiça do Reino para a alegria e paz dos cidadãos da terra, até habitarem a cidade celestial.

Também vê-se a missão na propagação do evangelho do Reino por todo o mundo. Chamamos esse aspecto da missão de evangelização mundial. Conforme as Escrituras, Deus tem escolhido pessoas em todas as nações, línguas e etnias para a vida eterna em Cristo Jesus; podemos afirmar que pelo caráter eterno, esse aspecto é mais importante na ordem das coisas de Deus. A cidade dos homens é caracterizada por coisas temporais e limitadas, aqui tudo passa, mas a cidade de Deus é eterna e a redenção eterna transformará tanto a alma, como esse corpo mortal e temporal. Se desejamos a imortalidade, precisamos priorizar aquilo que é espiritual, ou seja, investir nas almas para sua redenção, sem se esquecer do corpo. Fazer a obra completa, mas se tiver que escolher, não trocar a ordem e buscar a redenção espiritual.

Essa missão é mundial. Ninguém tem o direito de limitar sua ação e nem mesmo de escolher priorizar seu próprio território. A igreja evangeliza em todos os lugares ao mesmo tempo, por isso, nossas igrejas precisam enviar missionários e orar, ao mesmo tempo em que a grande maioria dos membros ficam para evangelizar a cidade. Certa vez um jovem procurou um pastor e disse: “pastor quero ser missionário, Deus tem me chamado para outro país”. Esse pastor respondeu: “nós não vamos te enviar, pois nosso chamado é com nosso bairro”. Isso é antibíblico e mundano, pois o chamado de Deus é mundial e todos devem participar, não há desculpa nenhuma. Querido irmão e pastor, se você e sua igreja não estão envolvidos com a missão, sinto dizer que vocês estão fora da vontade de Deus. Se sua igreja é pequena e tem sido usada como desculpa para não enviar dinheiro para missões, eu sinto muito, pois sempre será pequena, mesmo com centenas de pessoas.

Conclusão:

A missão de redimir o mundo pela obra de Cristo é a mais sublime e maravilhosa tarefa do ser humano. Deus nos chamou para cooperar e nosso serviço redunda em glória ao Bondoso e Soberano Deus! O Ser e as compreensões corretas devem vir antes da prática. Por exemplo, Paulo expressa a doutrina da ressurreição e estar com Cristo para depois expor os imperativos de “fazer” (Cl 3). “Os indicativos nos encantam e instrui para vivermos os imperativos” (Heber Jr.). Sempre foi assim nas Escrituras.

Quero com esse artigo convidá-lo à prática, mas a prática do evangelho e não do pragmatismo e praticismo – Deus seja louvado!!



[1] SILVA, Geoval Jacinto da. Educação Teológica e Pietismo. São Bernardo do Campo: UMESP, 2010.
[2] Rev. Idauro Campos, in: CARREIRO, Vanderli Lima. Nossa Doutrina. Rio de Janeiro: Unigevan, 2005. p.7.

2 de janeiro de 2015

MINISTRO DA PALAVRA: santo e douto


A Bíblia revela que há um conselho de líderes que são responsáveis pelo governo e o bom andamento espiritual do rebanho de Deus. Esse conselho é chamado de presbíteros, sempre no plural e com algumas características essenciais para a função (1Tm 5.17; Tt 1.7; 1 Pe 5.1-2; 1Tm 3.2; 2Tm 4.2; Tt 1.9; At 20.17, 28-31; Tg 5.14; At 15.16).
Dentre esses presbíteros há alguns que são chamados para se afadigarem na Palavra, seguindo mais de perto a decisão dos apóstolos e sucedendo o ministério apostólico como Ministros da Palavra (At 6.4; 1Tm 5.17). Normalmente esses presbíteros que ministram e ensinam são chamados de pastores, isso se deve ao fato de Efésios atribuir à docência aos pastores (Ef 4.11).
Por essas razões, o Pastor é mestre e um verdadeiro Ministro. Tem como sua principal função pregar e ensinar, tanto pela sã doutrina, como pelo exemplo de vida – na espiritualidade e piedade. Pensando nessas questões de piedade e docência é que lanço mão de dois deveres do Ministro: Ser irrepreensível e apto a ensinar (Tt 1.6; 1Tm 3.2). Por isso, o Ministro da Palavra (Pastor) precisa ser um homem santo[1] e douto[2] (culto), pois sem santidade não agrada a Deus e nem verá sua presença (Hb 12.14) e sem a Palavra conduzirá o povo a destruição e miséria espiritual (Pv 29.18; Os 4.6).
A História demonstra que o esforço para nomear ministros menos capacitados e com mais habilidade política e “prática” causou igrejas mais mundanizadas, secularizadas e acostumadas com modismos. A ênfase na prática em detrimento do conhecimento profundo tem produzido doutrinas controvertidas, heréticas e até práticas seitarias nos cultos públicos. Também vê-se que o predomínio de ministros leigos em algumas denominações promovem divisões sem fim e é a bandeira do movimento neopentecostal, com suas esquisitices.
A crise atual da Igreja no contexto religioso brasileiro é acima de tudo teológica/doutrinária, por isso, o que precisamos na verdade é de ministros do evangelho mais santos e doutos. Homens piedosos, que servem de joelhos com os olhos ao alto e ao mesmo tempo são conhecedores profundos das ciências bíblicas e gerais, verdadeiros teólogos; exercendo seu conhecimento na pregação das Escrituras, na visitação do rebanho, no auxílio aos necessitados e na defesa do evangelho que foi entregue aos santos.
Um Ministro não santo governa a igreja com libertinagem e escandaliza o evangelho do Senhor. Não se submete a ninguém e muito menos a disciplina, seu poder e domínio é absoluto e sua administração é déspota. Não segue a Escritura e se apega ao alegorismo e múltiplas interpretações para justificar seus demandos e libertinagem. É visível homens assim na atualidade, assim como era na Igreja Medieval. Um Ministro não douto (alguns se orgulham da prática) leva a igreja para inovações, sem reflexão e nem razão de ser. A quantidade de ministros aderindo ao neopentecostalismo ou ao movimento de crescimento de igreja é enorme; hoje é comum encontrar em igrejas e até mesmo de minha denominação práticas católicas, superstições, estruturas secularizadas, mensagens de auto-ajuda, interpretações relativizadas da Bíblia, entre outras coisas.
Quero dedicar algumas linhas para expor dois movimentos (modismos) que vem crescendo no Brasil e já entrou sorrateiramente em muitas igrejas históricas. O primeiro é profano e blasfemo, o chamado “Caminho da Graça”. Seu principal tema é a graça; fundado por um lunático que desdém das Escrituras e da Igreja de Cristo. Esse movimento é moralmente orientado pela inclusão e tolerância pós modernas, rejeitam os ensinos da Bíblia sobre a Igreja e as doutrinas e super valorizam a informalidade (ex: o culto para eles é reunião de amigos ao redor da mesa, a pregação é conversa sobre qualquer coisa). Não vou gastar mais tempo com esse grupo, basta acessar sites e youtube para conhecê-los, é público.
Outro movimento é o chamado MDA (movimento de discipulado apostólico). No link a seguir você pode conferir a história e perceber que começou com novas visões do Espírito e não pela Bíblia, também há uma forte ênfase pragmática (a igreja tem que crescer) - https://www.youtube.com/watch?v=zVSv3wJ7DME. Os princípios de discipulado são bíblicos e acredito que devem ser considerados, os problemas estão nas práticas. Eu mesmo participei de uma conferência em São Paulo e me lembro bem das ênfases em restauração de todos os dons, curas, crescimento numérico, pregação temática e desejo de ser como a igreja primitiva.
Tenho em mãos um documento de uma igreja ligada ao MDA, onde diz que seus discipulandos devem “submissão total”. O ponto onde descrevem essa submissão é posterior a explicação do MDA, onde se afirma que o discipulado se desenvolve com o conceito de paternidade e na questão da submissão, o discipulando deve se submeter ao discipulador da mesma forma como a seus pais. Me lembro recentemente de visitar uma igreja ligada a esse movimento e um pastor auxiliar chamava o pastor presidente de “meu pai”.
Outra questão é que no ponto quatro do material dizem que o discipulando precisa “pensar igual ao discipulador”. É uma corrente de manipulação e subtraem a liberdade de conciência do indivíduo, fazendo acreditar que o movimento é de Deus e o único capaz de retornar a igreja nos moldes primitivos.
Recentemente conversei com um importante pastor batista que entrou e saiu deste movimento, ele me relatou: “Glauco nós saímos porque percebi que nossas práticas mudaram muito e todas as igrejas de minha região que aderiram ao movimento se tornaram neo-pentecostais”. Se não bastasse, no mesmo documento citado acima, no ponto 5, pede-se ao discípulo “lealdade plena”. Conforme testemunhas que participaram do movimento “quem discordar das práticas desses grupos é considerado rebelde por seus líderes”.
Para esses movimentos de crescimento de igreja não há liberdade e a tradição deve ser rejeitada e colocada de lado. Concluo esse ponto com a fala de um pastor no culto público sobre sua tradição e denominação: “Eu quero que a convenção b... vá as favas, não quero nem saber, nossa igreja será como a igreja primitiva”. Um pastor me testemunhou que ouviu do mesmo líder: “Faço qualquer negócio para minha igreja crescer”. Lembro-me bem da febre “Igreja com Propósitos”, depois “Vineyard”, Willow Creek”, “MDA”, “Igreja Emergente” e qual será o próximo?
O Ministro santo e douto é importante porque todas as práticas estranhas ao Evangelho de Cristo ou são introduzidas pelo Ministro ou autorizadas por ele. Sendo assim, um Ministro não douto produz leigos ignorantes ao Evangelho, suscetíveis ao erro e uma igreja distante da vontade de Deus e sensível a todo vento de doutrinas e inovações sem fim. Meu apelo é que a Igreja Cristã Protestante invista e motive seus obreiros ordenados e leigos a uma vida piedosa e estudiosa das Escrituras e da teologia bíblica, sistemática e prática. O verdadeiro Ministro da Palavra busca a santidade e simplicidade, assim como busca ser um teólogo para o pastoreio, evangelização mundial e qualidade da sua igreja local.
Que o Deus da nossa vocação nos ajude para sua própria glória!


[1] Santo: Alguém separado para uma vida de piedade e de acordo com a vontade de Deus, separado do mundo.
[2] Douto: Alguém muito instruído, sábio, inteligente, estudioso e doutrinado

30 de dezembro de 2014

Minhas Resoluções Pastorais

Introdução:
Há alguns anos atrás escrevi duas resoluções com o título Confissões de Pastor. Estas confissões se perderam devido a um problema com o blog e e-mail, mesmo assim algumas delas continuam bem firmes em minha mente e o tempo me fez elaborar outras.

Tanto pela necessidade que tenho de escrever resoluções e constantemente reler e reler, bem como apologeticamente achar necessário uma filosofia ministerial, resolvi expor antigas e novas resoluções:

Primeira Resolução
Fazer tudo e com todas as forças para amar a Deus e buscar Sua glória;

Segunda Resolução
Ouvir tua voz pela Escritura e tê-la como autoridade e regra de fé em todas as minhas crenças, fazendo com que essa Palavra seja para mim um modus vivendis;

Terceira Resolução
Não ter minha vida preciosa para mim mesmo, mas cumprir a vocação que recebi do Senhor;

Quarta Resolução
Me esforçar ao máximo para que minha família viva para a glória de Deus e que eu seja um verdadeiro ministro em minha casa;

Quinta Resolução
Que seja meu lema de vida: paciência, trabalho e fidelidade;

Sexta Resolução
Prometo amar Sua igreja e dar a vida por ela, como Cristo fez e honrá-la na denominação que o Senhor me colocou;

Sétima Resolução
Manter minha consciência cativa a Palavra e nutrí-la com coisas nobres e virtuosas, o que convém a piedade e ainda não contrariar minha consciência porque isso não é saudável;

Oitava Resolução
Me apropriar da fé que recebi do Senhor Jesus e perceber a graça manifestada em todas as coisas, inclusive em minha esposa e filhos;

Nona Resolução
Desfrutar da tua lei como uma doce instrução de santidade e me alegrar na piedade;

Décima Resolução
Me esforçar ao máximo para me dedicar a oração no mínimo 1hora por dia e em alguns momentos levantar bem cedo para me encontrar contigo;

Décima Primeira Resolução
Meditar nessas coisas pelo menos uma vez por mês;

Décima Segunda Resolução
Ler e meditar em tua Palavra todos os dias e realizar a leitura de toda a Bíblia;

Décima Terceira Resolução
Prometo fazer de tudo e com todos os meios possíveis para fazer o evangelho conhecido em todas as etnias e nações do mundo. Me esforçar muitíssimo para motivar, treinar e enviar missionários aos povos;

Décima Quarta Resolução
Resolvi batalhar pela paz e unidade com todas as pessoas possíveis, desde que não tenha que negociar as doutrinas da tua Palavra, fazer conchavos políticos, omitir a verdade, enganar o próximo e desonrar teu santo ministério;

Décima Quinta Resolução
Prometo ser expositor da tua Palavra, cuidadoso no pastoreio - em oração e visitação e misericordioso com todos que se arrependerem, assim como o Senhor tem sido misericordioso e compassivo comigo;

Décima Sexta Resolução
Peço tua ajuda e sabedoria para ser justo e honesto em todas as coisas e para ser generoso em dar e repartir. Vou me esforçar para cumprir esse pedido todos os dias;

Décima Sétima Resolução
Prometo contemplar e desfrutar mais da tua criação e buscar ter prazer em todas as coisas lícitas e legítimas;

Décima Oitava Resolução
Resolvi ser mais estudioso e me exercitar mais na contemplação e meditação;

Décima Nona Resolução
Fazer de tudo para manter a integridade do meu próximo, principalmente meus colegas de ministério. Orando por eles e preservando seus nomes da maledicência;

Vigésima Resolução
Prometo me esforçar para viver uma vida frugal, com mais disciplina e simplicidade. Que em mim não se encontre lugar para a soberba, auto-exaltacao e muito menos ostentação;

Vigésima Primeira Resolução
Considerar as amizades e comunhão cristã mais do que as coisas;

Vigésima Segunda Resolução
Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est (Gisbertus Voetius (1589-1676). Defender esse princípio reformado para a Igreja que quer dizer um retorno às origens. O ideal protestante reformado é que a Igreja de Cristo precisa constantemente se ajustar às Escrituras, não buscar relevância no sentido de se ajustar a cultura ou a alguma inovação contextualizada. O ideal de Voetius e os puritanos com esse lema era que a Igreja deveria sempre estar se reformando na aproximação cada vez maior da Escritura e de uma interpretação correta da vontade de Deus para sua Igreja;

Vigésima Terceira Resolução
Servus Servorum Dei. Este lema foi cunhado pelo Bispo Gregório Magno (590-604), quer dizer que o pastor é Servo Dos Servos de Deus. Em seu ofício, o pastor se dedica com coração de servo, seguindo o exemplo de Jesus (Jo 13) e atuando sempre com humildade, simplicidade e dedicação exclusiva ao ministério; pregando, visitando e acudindo aos necessitados;

Vigésima Quarta Resolução
Prometo reler e meditar nessas coisas pelo menos uma vez no mês em todos os anos;

Vigésima Quinta Resolução
Me comprometo com o Senhor de que o não cumprimento dessas resoluções me levará ao arrependimento e ao início imediato do cumprimento delas;

Vigésima Sexta Resolução
Me comprometo a confessar e me arrepender de todos os meus pecados diariamente e se cometer pecados graves e públicos me submeter a disciplina do Senhor através da Igreja e levantar a cabeça mesmo humilhado para te honrar novamente e ser instrumento da tua glória;

Conclusão:

Senhor, espero em ti e conto com a manifestação da tua graça para que essas resoluções sejam vividas é um verdadeiro exercício da piedade - tudo isso somente para a tua glória!!

Que Deus me ajude! Tt 2.11

Glauco Pereira - verão de 2014